Geração Z ativa 'modo nostalgia': entenda o que está por trás dessa tendência
Discos de vinil, câmeras digitais e referências dos anos 2000 voltam com
força entre os jovens, que buscam autenticidade, estilo e pertencimento em
tempos de hiperconexão
Crescida em meio à hiperconectividade e ao excesso de estímulos
digitais, a Geração Z tem resgatado referências do
passado como parte de sua identidade. Segundo levantamento do
GWI, essa é a geração mais nostálgica: 15% preferem pensar no passado em vez do
futuro. Ao lado dos millennials, a Gen Z lidera o sentimento de nostalgia, com
metade dos jovens demonstrando apego a mídias como filmes, séries e músicas.
Curiosamente, 37% dos entrevistados afirmaram sentir saudade dos anos
1990, mesmo aqueles que não viveram conscientemente a década. Discos de vinil,
câmeras digitais como a Cybershot, o retorno de revistas como a Capricho e o
uso de maquiagens típicas do começo dos anos 2000 exemplificam como a nostalgia
se transformou em um fenômeno cultural, de consumo e de pertencimento.
Esse comportamento tem feito muitos jovens vasculharem armários e
gavetas em busca de itens antigos que tragam mais espontaneidade e presença.
Para Nícolas Reig, CEO do Grupo Invoice, essa tendência está diretamente
ligada à dificuldade de se encontrar autenticidade em um ambiente digital
saturado.
"Os jovens têm muita facilidade de encontrar grupos, de estar em
muitas rodas, mas o sentimento de pertencimento pode ser menos nítido dentro
desse contexto de superexposição à internet, onde tudo é perfeito. A
autenticidade de um período menos tecnológico e ‘mais imperfeito’ causa uma
sensação de realidade. É um modo de colocar os pés no chão dentro de um
universo tão grandioso e impecável", analisa.
5 razões pelas quais a Geração Z ativa o 'modo nostalgia'
Nícolas identifica cinco grandes fatores que explicam por que itens do
passado voltaram com tanta força para o cotidiano da Gen Z:
1. Busca por autenticidade
Em um mundo dominado por smartphones e filtros de IA, o natural e o
imperfeito ganham valor.
"Ao escolher câmeras compactas antigas, por exemplo, esses jovens
rejeitam a padronização digital e encontram na nostalgia uma forma de registrar
memórias de maneira mais autêntica", explica.
2. Conexão afetiva com o passado
Usar objetos que pais ou irmãos mais velhos já utilizaram cria um elo
emocional. A nostalgia funciona como uma ponte entre gerações, fortalece
vínculos familiares e oferece referências culturais do início dos anos 2000.
3. Construção de identidade e estilo
A nostalgia também é uma forma de se destacar. Incorporar elementos
retrô ao dia a dia não é apenas reviver o passado, mas transformá-lo em estilo
próprio. Itens antigos funcionam como marcadores de identidade dentro dos
grupos sociais.
4. Redefinição do ciclo de consumo
A Geração Z tem o poder de transformar produtos obsoletos em itens de
desejo.
"Ao revisitar tecnologias antigas, eles criam novas demandas em
mercados de revenda, elevando preços e atribuindo novo valor a objetos
esquecidos. Isso mostra como a nostalgia não é apenas emocional, mas também
econômica e cultural. Ela é capaz de reviver um mercado e trazer de volta todo
um setor esquecido", diz Reig.
5. Sentido de pertencimento em um mundo desconectado emocionalmente
A nostalgia ajuda a contrabalançar o excesso de perfeição e performance
nas redes sociais. Itens analógicos e experiências simples são usados como
forma de expressão real, não filtrada.
O que as marcas podem aprender com isso?
Para Nícolas, o resgate do passado não é sobre copiar literalmente o que
já existiu, mas sobre entender o que ele representa emocionalmente para essa geração:
"Não é sobre reviver o passado de forma literal, mas sobre entender
o que ele representa para a Geração Z. Eles estão buscando autenticidade em um
mundo hiperconectado, tentando se reconhecer em referências que carregam
memória e identidade. Para uma marca, isso é ouro. Porque quando você entende
quais códigos emocionais eles estão resgatando, consegue criar conexões que vão
muito além de um produto ou campanha."
O especialista alerta que as marcas precisam ir além da estética:
"Se você pega um objeto antigo e só o coloca na prateleira, não acontece
nada. Mas se entende o que aquele objeto significa — pertencimento,
autenticidade, estilo — aí sim você consegue falar a língua dessa geração. A
nostalgia deixa pistas sobre comportamento, valores e prioridades. É uma forma
de mapear o que engaja, o que emociona e o que gera vínculo real",
destaca.
Para ele, marcas que compreendem esse movimento podem criar não só
produtos, mas experiências mais relevantes:
"Essa é uma oportunidade estratégica, não apenas de marketing.
Marcas que captam esse movimento conseguem criar experiências, narrativas e
posicionamentos com relevância emocional e cultural. É aí que a memória vira
valor, não apenas em vendas imediatas, mas em conexão genuína, reconhecimento e
fidelidade", conclui.
Fonte: G1






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